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O que os
Parâmetros propõem para o ensino de Língua
Portuguesa?
O texto e
a diversidade textual devem estar no centro do trabalho de
alfabetização, de acordo com os PCN. É uma opção muito mais
produtiva do que a do método tradicional, baseado no uso das
cartilhas. A cartilha tem dois grandes problemas: o método é
mecânico e desvinculado do cotidiano da criança. Por estar
distante da realidade, o aprendizado tradicional da leitura e
da escrita acaba perdendo o significado para as
crianças, especialmente as das classes menos favorecidas,
que têm um acesso mais restrito aos livros, jornais e
revistas. A inadequação do método de alfabetização pode ser
apontada como uma das causas dos elevados índices de
repetência nas primeiras séries do ensino fundamental. A idéia
dos PCN é a de que as capacidades de leitura e escrita são
fundamentais para o exercício da cidadania e de que não é
possível a criança concluir esse nível de ensino sem
dominá-las completamente.
No caso
dos conteúdos, o que a proposta sugere?
Os
Parâmetros elegem o falar e o escutar como capacidades básicas
a serem desenvolvidas, ao lado do ler e escrever, no ensino
fundamental. Essas capacidades precisam ser desenvolvidas
sempre em situações de aplicação verdadeira e significativa
para os alunos. Isso quer dizer que é preciso trazer para a
sala de aula o conhecimento do mundo, ou seja, que os alunos
devem entrar em contato com o maior número possível de
exemplos de escrita: nomes das placas de rua, automóveis,
produtos nos supermercados, títulos das revistas nas bancas de
jornais. São textos que têm uma utilidade real e um
significado social.
Por que
alfabetizar com textos é melhor?
Quando se
parte de textos que dizem respeito à vida da criança, ela se
sente estimulada a avançar em suas descobertas. O texto se
transforma em um desafio, e não em uma ameaça. Compreendê-lo
tem gosto de conquista. Assim, o processo de alfabetização vai
se construindo naturalmente, a criança vai aos poucos
ampliando o seu vocabulário e a compreensão do funcionamento
da língua como estrutura viva, e não por meio de uma série de
regras gramaticais. Durante muito tempo acreditou-se que o
domínio do be-a-bá fosse indispensável para o ensino da
língua. Hoje se sabe que o aprendizado da escrita alfabética
não garante a compreensão e a produção de textos em linguagem
escrita. Ensinar a escrever é muito mais tranqüilo no convívio
com textos verdadeiros, em contextos nos quais leitores e
escritores verdadeiros são confrontados com situações reais de
comunicação.
O que
significa o texto como unidade de ensino?
Até pouco
tempo, a unidade básica do ensino de Língua Portuguesa era a
letra ou, no máximo, a sílaba. Ensinava-se a juntar as sílabas
para formar palavras, juntar palavras para formar frases e
juntar frases para formar textos. Estes textos serviam apenas
para "ensinar" a ler — eram textos para a escola, e não para a
vida. Refletiam muito mais uma reunião de frases do que o
conteúdo de uma idéia, uma função social. Mas se o objetivo é
fazer a criança produzir e interpretar textos, o texto real e
de qualidade deve nortear todo o trabalho em sala de aula. A
idéia é que os professores fujam de textos simplistas que
subestimam a inteligência infantil.
Qual é o
papel da leitura nas classes de alfabetização?
De acordo
com os PCN, a leitura é uma ferramenta essencial do
conhecimento, pois a possibilidade de escrever bons textos tem
origem na leitura. Também nessa questão, os Parâmetros
reforçam a idéia de que não são quaisquer textos que vale a
pena levar para a leitura em sala de aula. Mesmo tratando-se
de crianças pequenas, que estão iniciando a alfabetização, os
textos muito simplificados e facilitadores não despertam o
interesse pela leitura. O melhor é que sejam interessantes,
emocionantes, intrigantes. Afinal, durante um bom tempo o
professor é o mediador e o animador da leitura em sala de
aula.
O que muda
no ensino de Língua Portuguesa, após a
alfabetização?
Ainda
hoje, muitos professores acreditam que ensinar Português é
ensinar gramática. Os PCN vão contra essa idéia. De 1ª a 4ª
série, o objetivo principal é formar leitores e crianças
produtoras de textos. Ao final da 4ª série, espera-se que o
aluno conheça ortografia e gramática, não como um amontoado de
regras, mas como resultado da prática efetiva de leitura e
escrita.
Os
Parâmetros sugerem, por exemplo, que os professores montem
projetos de leitura em sala de aula. Como começar?
Lendo e
escrevendo junto com os alunos, propondo exercícios de
reescrita dos textos lidos e correções em grupo dos erros
cometidos. Assim, a criança descobre a língua a partir das
questões que surgem na montagem dos textos. Vale lembrar que a
quantidade de leitura e de escrita não é a mesma. Lemos muito
mais do que escrevemos.
Quais são
as dificuldades dos professores para seguir os PCN nessa
área?
São
dificuldades de ordem teórica, pois os Parâmetros fazem
referência a uma série de discussões relativamente recentes
que aconteceram na Lingüística. Muitos professores não tiveram
acesso a essas descobertas, porque se formaram há mais tempo
ou porque estudaram em faculdades que não deram atenção a
esses novos conhecimentos. A situação é mais crítica de 5ª a
8ª série, pois nos últimos anos os sistemas de ensino
investiram muito mais na formação dos professores de 1ª a 4ª
série, em função dos altos índices de evasão e repetência
registrados nessa fase. Em geral, o que aparece na escola
ainda hoje é o velho esquema de emissor>código
>receptor. Mas atualmente sabemos que é preciso muito mais
do que um código comum para estabelecer comunicação, que esta
só faz sentido se estiver inserida numa perspectiva histórica
e social.
Fazer
cursos de aperfeiçoamento a respeito dessas novas teorias é
suficiente?
Em geral,
não é. É preciso saber fazer a transposição didática da
pesquisa, do contrário acaba-se caindo em certas armadilhas
que apresentam o conteúdo de cara nova, enquanto a essência
continua a mesma. Muitos livros
didáticos até incorporam a diversidade textual — mostrando
exemplos de propagandas, notícias de jornais, contos —, mas
esse material acaba recebendo um mesmo tratamento
pasteurizado, como se seu uso e sua finalidade fossem
idênticos. Deve haver procedimentos de leitura mais complexos.
Caso contrário, o leitor cai em um emaranhado de textos e o
professor transmite a idéia de que boa leitura é aquela que se
faz do começo ao fim e em que todas as palavras desconhecidas
são procuradas no dicionário. É preciso explorar os diferentes
modos de ler e também as diversas modalidades de escrita. O
gênero e a finalidade de um texto são o que determina o uso de
um certo estilo de redação. Uma carta para um amigo, por
exemplo, é muito diferente de uma carta formal escrita para se
pedir emprego. Assim como ambos os textos não têm nada em
comum com um poema ou um texto argumentativo.
Mas a
criança deixa de aprender gramática?
Existem
várias gramáticas, embora a única escrita seja a da língua
padrão. A pessoa que fala eu vou, tu vai, ele vai, nós
vai está seguindo uma outra regra, que por sinal é muito
parecida à do inglês, em que apenas a terceira pessoa do
singular é diferente. A língua culta deveria ser ensinada como
uma língua estrangeira, no sentido de que não se aprende uma
língua esquecendo outra. Além disso, os PCN trabalham com a
idéia de que escrever e falar são coisas diferentes, e de que
não existe maneira certa ou errada de falar. Tanto que propõem
a discussão em sala de aula dos preconceitos que há em torno
das variedades, ou variantes, lingüísticas.
Meios de
comunicação, como a televisão, atrapalham a criação de um
hábito de leitura?
Não.
Também é possível concluir, com os Parâmetros, que cinema e
televisão não inibem o hábito da leitura. Claro que a
existência desses veículos mudou a relação com a leitura. Por
isso, é importante dialogar com esse meios. Indicar livros que
tenham sido adaptados para o cinema ou a televisão é uma
experiência rica e interessante, pois possibilita comparar
diversas linguagens. O gosto pelo cinema não impede que
ninguém seja um bom leitor.
Que outros
procedimentos, além das linguagens oral e escrita, devem ser
praticados?
Procedimento quer dizer saber fazer. Nesse sentido,
existem técnicas que ajudam a tornar o próprio processo de ler
e escrever mais fácil. Quando o aluno ainda não lê com
autonomia, o professor deve ler junto com ele. Grafar e
revisar os próprios textos é uma habilidade que perdurará pela
vida afora. Saber falar, expor seu ponto de vista, argumentar
e debater são capacidades que se adquirem e se aperfeiçoam com
a prática.
Como os
temas transversais são trabalhados em Língua
Portuguesa?
Tudo
começa com a constatação das variantes lingüísticas, ou seja,
não existe uma única língua portuguesa, mas uma multiplicidade
de modos de falar que convivem e refletem modos de viver, usos
e desautoriza a linguagem que a criança traz de casa. É
preciso combater o preconceito lingüístico da mesma forma que
se combatem o preconceito racial, sexual, etário ou religioso.
Ninguém pode ser discriminado por falar de um jeito diferente.
Aliás, não é corrigindo o que não está de acordo com a
norma-padrão que se aprende a falar e escrever segundo essa
norma. O aprendizado acontece quando a criança tem acesso a
livros para ler e quando ela se passa a participar de novos
espaços sociais que exijam habilidades lingüísticas mais
amplas. É preciso muito cuidado na hora de resgatar a
linguagem que a criança traz de casa. Nada de querer corrigir
o falar do Chico Bento. Trazer este exemplo para depois
apresentá-lo como errado não ajuda nada. Pelo contrário, acaba
reforçando o preconceito. Respeitar a pluralidade lingüística
é respeitar a pluralidade.
E quanto
aos demais temas transversais?
Não há
como trabalhar a linguagem por meio de textos sem considerar
outros temas. Para que as sutilezas de um texto se revelem,
não basta entender o que está escrito, mas por que determinado
texto foi escrito de uma ou de outra maneira. É o modo de ir
revelando a postura ideológica que está por trás de cada
texto. É a leitura crítica. O grande perigo nas discussões
sobre os temas transversais é a língua portuguesa acabar se
tornando coadjuvante. Por exemplo, numa discussão sobre meio
ambiente, a desconstrução dos textos para verificar quais são
os interesses a que eles estão servindo é o papel da língua.
Não se pode deixar a discussão para as outras áreas e o
relatório para o Português. Aliás, todas as áreas têm de se
envolver com a leitura escrita. Ela é uma competência básica
para todo cidadão, que deve saber que a linguagem nunca é
neutra.
Qual deve
ser a postura do professor?
Também no
caso de Língua Portuguesa, é preciso respeitar o conhecimento
anterior da criança, valorizar esse conhecimento e trabalhá-lo
em situações reais de uso da escrita. Além disso, se o
objetivo é construir uma comunidade de leitores, o professor
precisa abrir mão da idéia de que controla tudo. O que passa
pela cabeça de uma criança enquanto ela está com um livro
diante de si pertence a ela. Em uma classe com 25 crianças, é
possível que haja 25 interpretações diferentes para um mesmo
texto. E elas precisam ter essa liberdade, sem que o professor
se preocupe em fazê-las aceitar a interpretação dele, que
considera a mais adequada.
Como
trabalhar os conteúdos de Língua Portuguesa no
pós-alfabetização?
Muitos
professores hoje têm dificuldade em organizar os conteúdos de
Língua Portuguesa no pós-alfabetização, pois ficam confusos
sobre o que e como trabalhar, já que não existe mais a ênfase
no ensino da gramática. Mas o que eles precisam ter claro é
que os conceitos gramaticais são apreendidos por meio da
prática dos procedimentos de ler e escrever. Para formar
escritores competentes, é preciso apresentar à criança bons
autores, em diferentes gêneros. O aconselhável é sempre
mesclar os gêneros para não excluir os alunos que não se
adaptam a um determinado gênero, mas se dão muito bem nos
demais.
O que muda
na avaliação de Língua Portuguesa com os PCN?
Eles
propõem que se avalie o processo de aprendizado, e não um ou
outro resultado isoladamente. Existe um grande risco de que o
professor crie a expectativa de que o aluno produza textos tão
bons quanto os que lhe foram apresentados como modelos. Uma
maneira de evitar esse risco é pedir aos alunos que produzam
textos sempre que forem iniciar um conteúdo novo. Assim, o
professor faz um diagnóstico do que os alunos já conhecem.
Depois de trabalhar com bons autores, uma nova produção poderá
avaliar o quanto as crianças avançaram. Dessa forma, é
possível ser mais justo e objetivo.
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