| Quais
são as temáticas específicas desta disciplina?
A História trabalha com a
temporalidade, isto é, a relação do ser humano com o tempo, os
sujeitos e os fatos históricos. Os PCN abrem novas
perspectivas ao lembrar o professor de que o tempo não é
apenas linear – hoje, amanhã, depois de amanhã, no ano
2001, 2002 etc. – ; que os sujeitos históricos não são
apenas os grandes personagens e que os fatos históricos não se
restringem aos acontecimentos políticos. Para tanto, é preciso
ter um repertório de história cultural, história da mulher, da
criança etc. O primeiro passo é saber que existem outras
histórias a serem exploradas. É preciso confrontá-las com o
mundo real, com o cotidiano das crianças e dos jovens. A cada
momento é preciso fazer a ligação entre passado e
presente.
Quais são as maiores
dificuldades na aplicação dos PCN no ensino de História de 1ª
a 4ª série?
Uma das grandes dificuldades é a
falta de tradição no ensino de História. Durante muito tempo,
os professores ensinaram Estudos Sociais, uma disciplina que
se apoiava no nacionalismo e em datas cívicas, como a
independência e a proclamação da República. Eram fatos
isolados e não se dava importância ao processo histórico. Para
o professor de 1ª a 4ª série que tem formação em magistério,
às vezes é difícil entender o que a disciplina de História tem
de específico. Uma idéia para superar essa dificuldade é
estabelecer um diálogo e formas de cooperação com os
professores de 5ª a 8ª série.
Como se aplica o
construtivismo no estudo de História?
Essa é outra dificuldade. Muitos
professores de 1ª a 4ª série não conseguem aplicar a postura
construtivista a essa disciplina. Desde os anos de 1970, uma
maioria expressiva de professores interpretou e concluiu que o
ensino construtivista de História devia concentrar-se nos
chamados círculos concêntricos. A idéia era a de que as
crianças pequenas só entendem o que é concreto — e esse
conceito foi entendido literalmente. Assim, nas duas séries
iniciais, a criança estudava sua identidade, sua família, a
escola e o bairro. Na terceira série, ela estudava o município
e, na quarta, o Brasil. Isso acabou consolidando algumas
temáticas sem questionamento. Por exemplo: a imigração se
transformou em um tema tradicional, sem considerar a realidade
das crianças. Os professores precisam relativizar, pois numa
classe na periferia de São Paulo, os pais das crianças não
vieram da Itália ou da Alemanha, mas provavelmente do Nordeste
e de Minas Gerais. Se o professor esquece a origem das
crianças e só enaltece o trabalho dos imigrantes europeus,
seus alunos ficam mudos, murcham, sentem-se
desvalorizados. Felizmente, esse quadro pode ser alterado.
O próprio professor pode servir como referência, caso seu pai
tenha vindo de Pernambuco, ou sua da mãe, de Goiás, por
exemplo. Se a mãe da criança é sozinha, isso não deve ser
motivo de vergonha para ela. Essa é a realidade de uma grande
parte da população brasileira. É a história social brasileira.
Isso é partir da realidade dos alunos, segundo uma postura
construtivista.
O que deve ser
privilegiado em História de 1ª a 4ª série?
Os Parâmetros detalham dois grandes
eixos temáticos – a história local e do cotidiano, e a
história das organizações populacionais. A história do
cotidiano pode incluir, por exemplo, o alimento que está sobre
a mesa e que tem uma referência cultural. A criança precisa
desenvolver a capacidade de olhar a mesa e reconhecer a origem
da comida que está sobre ela, qual é o seu significado. A
história do cotidiano é muito importante, pois é esse o espaço
que a criança e o jovem têm para mudar, para adotar uma
determinada atitude. É no dia-a-dia que eles podem aprender a
valorizar e proteger o meio ambiente no seu entorno. É no
cotidiano que vão aprender a valorizar a mãe lavadeira, por
exemplo, que luta para criá-lo.
Como se trabalham os
eixos temáticos?
O jeito mais fácil de tratar os
eixos temáticos é por meio dos subtemas propostos nos PCN.
Seja qual for o tema, o fundamental é que o passado só faz
sentido na relação com o presente. Mas a idéia de trazer os
problemas para o presente às vezes faz com que os professores
se limitem aos dias de hoje. Por exemplo: para tratar a
questão da cidadania, é preciso pesquisar quando e onde ela
surgiu, como era entre os gregos, como se foi transformando ao
longo da história. O ponto é entender o mundo atual dentro da
temporalidade. O professor precisa fazer escolhas, ter
autonomia como educador e como professor de
História.
E como se trata a
história local?
Um exemplo de tema de história
local é a realidade dos povos indígenas. É o resgate da
história dos moradores locais há 200 ou 500 anos. Como é a
relação da comunidade em questão com os povos indígenas hoje e
como era no passado? Esse tema aborda a temporalidade e é
também um modo de apresentar a diversidade étnica e cultural
do povo brasileiro. É importante lembrar que no Brasil existem
170 diferentes línguas e que os povos indígenas são os donos
de um imenso patrimônio cultural. Esse é um jeito de fazer as
crianças conhecerem a nossa identidade e se sentirem donas
dessa herança.
Como os PCN encaram
a questão dos nomes e datas tradicionalmente decorados em
História?
Muitos dados permanecem, pois
servem como balizas para a compreensão do mundo contemporâneo.
O que muda é a relação com eles. A memória é usada em
diferentes situações na vida. Por exemplo, quando o aluno vir
um quadro do pintor holandês Frans Post, vai perceber que
aquele tipo de pintura é diferente da atual e que traz uma
série de referências de sua época. O fundamental é saber
transferir o conhecimento adquirido para a vida diária. As
datas servem para nos localizarmos no tempo, entender o que
veio antes e o que veio depois. Uma proposta interessante é o
trabalho com as durações, quer dizer, não é a data sozinha,
mas o período que um determinado evento ocupa no tempo.
Algumas durações são curtas, outras mais longas, outras
longuíssimas. Em que o tempo de duração de um evento
influencia a socidade? Por exemplo, a escravidão no Brasil
durou mais de 300 anos. Esse tempo produziu efeitos na
sociedade brasileira que perduram até hoje. É importante
perceber que há várias dimensões de tempo simultaneamente. Por
exemplo: o presidente muda a cada quatro ou oito anos, mas
todas as trocas estão dentro de um mesmo sistema econômico, o
capitalismo, que já dura mais de 400 anos.
Quais são as fontes
para o ensino de História?
É importante ensinar a criança a
manusear vários tipos de documentação. Cartas, jornais,
documentos pessoais, entrevistas são fontes para o ensino de
História. No trabalho com a memória, a pesquisa com pessoas
mais velhas na comunidade ou na família e o levantamento de
dados em jornais antigos são duas ferramentas bastante ricas.
Esses procedimentos podem ser usados, por exemplo, para
resgatar a história da água. Onde se pegava água há 50 anos,
como as mulheres lavavam a roupa. Pessoas muito velhas podem
contar a história da cidade. A leitura de imagens também é
muito importante. Por isso, deve-se valorizar o contato com
vídeos e obras de arte. Na realidade, o professor ensina o
aluno a pesquisar, uma atividade que ele exercitará a vida
toda.
Como a
História trabalha os temas transversais?
Em História, os eixos temáticos são
os próprios temas transverais, que na verdade representam os
grandes temas do mundo de hoje. De 1ª a 4ª série, a história
local deve ser confrontada com a história de outros lugares.
Assim, pesquisar as migrações no Brasil dentro do eixo de
deslocamentos das populações leva à discussão sobre a formação
da identidade e da cidadania. É a própria pluralidade
cultural. A ética, por seu lado, permeia as relações entre os
diversos povos que se encontram em um determinado lugar e isso
deve ser lembrado. Outro exemplo: o estudo da história da
água – como era o abastecimento antigamente; como é hoje;
o que a água representa para o mundo atual – também pode
levar a um debate ético sobre a economia de água ou sua
importância para a saúde humana.
O que a criança
precisa saber da História?
Uma habilidade básica é aprender a
se localizar no tempo e compreender que o tempo não é uma
categoria absoluta, mas construída socialmente. Tanto que além
do nosso, existem outros calendários e outras formas de contar
o tempo. É preciso perceber a dimensão social e cultural
dessas construções. Dessa forma, os fatos políticos e os
grandes personagensdeixam de ser o tema dominante da História,
que adquire a perspectiva de um processo em construção
permanente.
Como deve ser o uso
do livro didático?
Mesmo que os livros sejam ruins,
eles podem ser aproveitados. Apresentando vários deles, é
possível mostrar que há opiniões diferentes, vinculadas a
diferentes posições ideológicas. Por exemplo, se o professor
estiver tratando da Revolta de Canudos, pode confrontar os
livros com notícias de jornais. O livro também pode ser uma
fonte para o trabalho com imagens, como as reproduções de
obras de arte.
Como as atitudes são
trabalhadas em História?
As atitudes partem de uma
perspectiva do cotidiano, pois é no dia-a-dia que as pessoas
se posicionam. A História proposta pelos PCN é o conhecimento
na relação com a vida das pessoas. É este aprendizado
significativo que vai gerar umadeterminada atitude. Nesse
sentido, é importante escolher temas que possibilitem a ação
no mundo, problemas que têm de ser enfrentados. Voltando ao
exemplo da água, economizá-la é fundamental para que não falte
para ninguém. É uma questão de respeito pelo outro, de
cidadania. Outra possibilidade é refletir como se constrói uma
identidade latino-americana a partir da comida. Qual é a
diferença entre batata chips e um prato de arroz com feijão? A
quem interessam os alimentos industrializados? Que escolhas
podemos fazer diante desses alimentos?
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