| O
que os PCN alteram no ensino de Ciências de 1ª a 4ª
série?
No ensino tradicional, o ponto de
partida das Ciências são as definições de conceitos. De acordo
com os Parâmetros, os conceitos são o ponto de chegada. Quer
dizer, as experiências, as discussões, as comparações é que
vão fazer com que as crianças construam os conceitos. Essa
mudança é fundamental porque, à medida que a criança constrói
o caminho do conhecimento, ela o assimila de fato.
Como se aplica o
construtivismo às Ciências?
A psicogênese – os estudos do
biólogo suíço Jean Piaget sobre o processo de desenvolvimento
cognitivo das crianças que originaram o construtivismo –
é uma forma de olhar para a experiência de aprender que até
então não havia sido proposta. Quando se lê a biografia de um
grande cientista, como Galileu Galilei, percebemos que ele
teve dúvidas, imaginou hipóteses que se revelaram erradas,
teve de voltar atrás em alguns conceitos para avançar em
outros. Quer dizer: a construção do conhecimento não é um
caminho em linha reta. Costumamos tirar da criança o direito
de errar. É importante verificar como incorporamos o erro. É
preciso estar atento ao processo, às hipóteses que o aluno
levantou para chegar a um determinado resultado, e não
simplesmente verificar se a resposta está certa ou
errada
Como se utiliza o
conhecimento prévio das crianças na construção do conhecimento
científico?
A criança vive formulando hipóteses
sobre o mundo à sua volta. Se a professora lhe perguntar se a
Lua tem luz própria, ela poderá responder que não,
justificando sua resposta no fato de os astronautas não terem
se queimado quando estiveram por lá. Esse tipo de formulação
deve ser levada em conta. Mas o conhecimento do aluno nesse
caso ainda é insuficiente, mesmo que a resposta seja lógica e
coerente. A partir da formulação empírica do aluno, o
professor cria um conflito. A solução do conflito entre a
lógica da ciência e o conhecimento empírico do aluno
representa a aquisição do conhecimento.
Qual é o
valor da experimentação em Ciências?
É um procedimento fundamental na
construção do conhecimento científico. No espaço escolar, não
há experiência que não dê certo, mesmo quando os resultados
são diferentes do esperado. Nesse caso, professor e alunos
devem, juntos, procurar as causas da diferença. Também vale
incentivar os alunos a colocarem em prática procedimentos
diferentes do padrão e analisar em que os resultados
diferiram.
O
conhecimento científico não pára de crescer. Como dar conta de
tudo na sala de aula?
É impossível abarcar todo o
conhecimento. É preciso selecionar. O principal critério a ser
usado na escolha de temas para serem trabalhados junto com os
alunos é partir do contexto social e da vivência de alunos e
professores. Isso facilita o diálogo com outras disciplinas e
coloca nas mãos do professor um instrumento flexível para
adaptar as atividades ao interesse e às características da
classe. Além disso, é preciso oferecer ferramentas para que a
criança desenvolva a capacidade de pesquisar sozinha. Esta é
uma habilidade que lhe será útil por toda a vida.
Quais são os
procedimentos que devem integrar o aprendizado de
Ciências?
No estudo de Ciências, a
criança deve desenvolver a observação – direta, de
animais, plantas etc; ou indireta, por meio de filmes, fotos,
microscópios, telescópios etc. – , a experimentação, a
leitura de textos previamente conhecidos pelo professor, a
entrevista, a excursão e o estudo do meio. Todos esses
procedimentos são meios de obter as informações necessárias à
solução de um problema. No final de um trabalho ou de um
projeto, o conhecimento deve ser sistematizado para não ficar
solto, perdido. A sistematizacão, isto é, a ordenação do que
foi aprendido é o último degrau na constituição de um
determinado conhecimento, indispensável antes de se passar a
outro conteúdo, pois clareia o que foi trabalhado e dá uma
visão de conjunto.
Como são tratadas
as atitudes no ensino de Ciências?
Essa é uma área em que existe uma
demanda constante de tomada de atitude frente ao conhecimento.
É um grande engano imaginar que a ciência é neutra. Longe
disso, ela é um campo fértil para os jogos de interesses.
Nesse sentido, as questões relacionadas ao ambiente – um
dos blocos temáticos sugeridos pelos Parâmetros – são
privilegiadas. O primeiro questionamento é a crença que
perdurou até poucas décadas atrás de que o ser humano era
senhor da natureza, e não parte dela. A partir do entendimento
da complexa rede de inter-relações entre todos os seres vivos,
fica mais fácil entender o porquê de não jogar lixo na rua ou
desperdiçar água. A atitude deve nascer da compreensão de sua
importância, não de um discurso. O bloco ser humano e saúde
também é uma parte do conhecimento que se presta à tomada de
várias atitudes. Ele parte da importância que é atribuída às
variações individuais e estimula uma postura de auto-respeito
e de aceitação das diferenças entre as pessoas. O bloco
recursos tecnológicos representa igualmente uma área em que os
debates e as atitudes podem florescer, pois trata-se da
discussão sobre os processos, instrumentos, aparelhos e
máquinas que transformam matéria e energia em produtos
necessários à vida humana, questionando os prós e os contras
de cada tecnologia a partir de questões simples como, por
exemplo: de onde vem a luz das casas?
O que muda na
avaliação do ensino de Ciências segundo os PCN?
Tradicionalmente, a avaliação
baseia-se em questionários, que muitas vezes se prendem a
definições e conceitos decorados pelos alunos, sem a
necessária compreensão. Utilizam-se exemplos como se fossem os
próprios conceitos. Como a proposta dos Parâmetros é chegar
aos conceitos depois de passar por experimentos, discussões e
aproximações, a avaliação à moda antiga deixa de fazer
sentido. Para a avaliação, a interpretação de determinadas
situações que exijam a aplicação dos conceitos apreendidos
deve ganhar espaço em relação às questões isoladas e
genéricas: pode ser uma história, um texto, uma figura, um
experimento ou um problema. Também muda a postura do professor
frente ao erro, que deixa de ser encarado como culpa do aluno
e passa a ser uma sinalização para que o professor reoriente a
sua aula, criando novas situações que ajudem a criança a
avançar na construção do conhecimento.
Como os PCN
propõem que se aborde a questão da Ciência Aplicada, ou a
Tecnologia?
Uma das sugestões é iniciar essa
discussão propondo aos alunos a comparação entre os
procedimentos adotados pelos homens no decorrer da História
para resolver seus problemas cotidianos: como faziam para
levantar grandes pesos antes da invenção da alavanca e dos
guindastes; como chegaram à invenção da roda; como foram
criando e aperfeiçoando meios de transporte cada vez mais
sofisticados.
Os PCN também
tratam da educação para a saúde?
Sim, e as sugestões dizem respeito
ao incentivo e à aquisição de hábitos saudáveis. Eles insistem
na idéia de que é preciso ensinar os alunos a desenvolver
respeito pelo próprio corpo. E o mais importante: não se pode
perder de vista que o corpo humano não é uma máquina. Ele
sente, se relaciona com o que está fora dele e tem uma série
de necessidades.
|