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Folha de S.Paulo de 29.04.2003.
Os moluscos (do latim "molluscus", mole)
são animais de corpo mole, entre os quais
estão o caramujo e as ostras. Seus corpos
macios são presas fáceis e apetitosas para
os predadores gulosos. Na medida do que
sabemos, os moluscos não têm capacidade
para pensar. O que não significa que não
sejam inteligentes. Acontece que a
inteligência dos moluscos não se encontra
na cabeça ela se encontra no seu corpo.
Parafraseando Pascal: "O corpo tem razões
que a própria razão desconhece", com o que
Freud concordaria. Os moluscos são
inteligentes sem precisar pensar. E foi
assim que eles, movidos pela necessidade
de sobrevivência, para se proteger dos
predadores, construíram carapaças
protetoras que os protegessem: as conchas.
Confesso que fico assombrado contemplando
a concha espiral de um simples caramujo de
jardim. Essa experiência de espanto
perante um objeto, os gregos diziam que é
dela que surge o pensamento. Os caramujos
me espantam. Espantado, penso: "Como é que
essa gelatina estúpida é capaz de
construir esse objeto assombroso, a sua
concha espiral de perfeição matemática?".
Dentro do corpo de cada molusco, mora um
matemático invisível. Jogando o
jogo-do-bocó, que aprendi no "Livro sobre
Nada", do poeta mato-grossense Manoel de
Barros, eu digo: "Os caramujos me
metafisicam...". Eles me fazem pensar
sobre o mistério do Universo. Uma das
tarefas mais alegres de um educador é
provocar, nos seus alunos, a experiência
do espanto. Um aluno espantado é um aluno
pensante...
Pois parece que Piaget sofreu de espantos
parecidos com os meus diante dos moluscos.
Tanto assim que, nos anos de sua
juventude, se dedicou a pesquisá-los nos
lagos da Suíça. Mas, de repente, ele deu
um salto dos moluscos para a psicologia da
aprendizagem entre os humanos. Os
desavisados concluem: Piaget mudou de
espanto. Não. Ele não mudou de espanto.
Apenas mudou de molusco. Pois nós, seres
humanos, somos semelhantes aos moluscos.
Aquilo que os moluscos fazem é uma
metáfora daquilo que nós fazemos.
Observando os moluscos, ele compreendeu
melhor os seres humanos. Porque os nossos
corpos também são moles. Compare o seu
corpo com o corpo de um tatu, de um rato,
de um coelho, de um gambá, de um
beija-flor. Eles sobrevivem usando como
ferramenta apenas o corpo que receberam
por nascimento. Mas nós ai de nós! Que
seria de nós se só contássemos com os
nossos corpos para sobreviver?
Morreríamos. Se nós sobrevivemos é porque
fizemos o que os moluscos fizeram:
construímos conchas.
Mas há uma diferença. Os moluscos já
nascem sabendo. Não precisam aprender.
Seus corpos já nascem com um chip com
todas as informações necessárias para a
construção das conchas. O programa está
pronto. Nós, ao contrário, não nascemos
sabendo. Nossos corpos, por nascimento,
nada sabem... E essa é a razão por que
temos de aprender.
Este é o sentido da
educação: o processo pelo qual as gerações
mais velhas ajudam as gerações mais novas
a aprender a arte de construir conchas.
Que são nossas conchas? Nossas conchas são
formadas com aquilo que inventamos e
construímos para sobreviver...
Parte da educação, assim, é o aprendizado
das técnicas e artes necessárias à
produção dos objetos que vão completar o
nosso corpo mole, dando-lhe maior
eficácia. Uma faca é uma melhoria dos
dentes e das unhas. Uma escada é uma
melhoria das pernas. Óculos são melhorias
dos olhos. Um computador é uma melhoria do
cérebro. Foi a nossa fraqueza, o nosso
corpo mole, que nos obrigou a pensar.
Nossa inteligência é filha da nossa
fraqueza.
Há, em Juiz de Fora, um velho professor
que viveu espantado pelos moluscos: Maury
Pinto de Oliveira . Seu espanto foi tão
grande que dedicou sua vida a colecionar
conchas de moluscos. São milhares de
conchas, dos tipos mais variados, vindas
de todas as partes do mundo uma delas pesa
120 quilos. Fiquei encantado com sua
beleza e perfeição matemática. Pensei que
a vida não se contenta em produzir objetos
úteis. Uma concha é, de fato, um objeto
útil para o molusco que mora nela. É uma
casa. Mas não é simplesmente uma casa. É
uma casa espantosamente bela...
Talvez, contemplando os estúpidos
moluscos, possamos aprender algo sobre a
educação. Primeiro, que é necessário
aprender as utilidades e as competências.
Aprender ferramentas úteis. Sem elas, não
se sobrevive.
Segundo, que é necessário aprender as
desutilidades, as coisas que, sem servir
para nada, nos dão alegria e razões para
viver. Ler Manoel de Barros, fazer o
jogo-do-bocó, aprender a adivinhar as
nuvens, "olhar uma paineira florida" diria
Mario Quintana, ver figuras, ouvir Bach e
Villa-Lobos, montar quebra-cabeças, ouvir
a viola de dez cordas de Ivan Vilela... A
ordem do poder e a ordem do amor. Sem o
amor, o poder é estúpido. Sem o poder, o
amor é fraco. Mas, quando os dois se
encontram, vem a alegria. Como disse
Oswald de Andrade, "a alegria é a prova
dos nove...". Esse é o resumo da educação.
 
(*) Rubem Alves, quase 70, é educador e
escritor. Acabou de escrever o prefácio do
livro "Uma Nova Educação para uma Nova
Era", de Eduardo Oscar Chaves.
 
Profª Euflozina |