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Por uma Arte de
Contar Histórias
Ah, como é
importante na formação de qualquer criança ouvir
muitas histórias... Escutar histórias é o início
da aprendizagem para ser um leitor e ser leitor
é ter todo um caminho de descobertas e de
compreensão do mundo, absolutamente
infinito...

O
primeiro contato da criança com um texto é
feito, em geral, oralmente. É pela voz da mãe e
do pai, contando contos de fada, trechos da
Bíblia, histórias inventadas tendo a gente como
personagem, narrativas de quando eles eram
crianças e tanta, tanta coisa mais... Contadas
durante o dia, numa tarde de chuva ou à noite,
antes de dormir, preparando para o sono gostoso
e reparador, embalado por uma voz amada... É
pode rir,sorrir, gargalhar com as situações
vividas pelos personagens, com a idéia do conto
ou com o jeito de escrever de um
autor e, então, poder ser um pouco cúmplice
desse momento de humor, de
gozação.

Ler
histórias para as crianças, sempre, sempre... É
suscitar o imaginário, é ter a curiosidade
respondida em relação a tantas perguntas, e
encontrar muitas idéias para solucionar questões
– como os personagens fizeram... – é estimular
para desenhar, para musicar, para teatralizar,
para brincar... Afinal, tudo pode nascer de um
texto.
O significado de
escutar histórias é tão amplo... É uma
possibilidade de descobrir o mundo imenso dos
conflitos, das dificuldades, dos impasses, das
soluções, que todos atravessamos e vivemos, de
um jeito ou de outro, através dos problemas que
vão sendo defrontados, enfrentados (ou não),
resolvidos (ou não) pelos personagens de cada
história (cada um a seu modo...) E assim
esclarecer melhor os nossos ou encontrar um
caminho possível para a solução deles... É
ouvindo histórias que se pode sentir (também)
emoções importantes como: a tristeza, a raiva, a
irritação, o medo, a alegria, o pavor, a
impotência, a insegurança e tantas outras mais,
e viver profundamente isso tudo que as
narrativas provocam e suscitam em quem as ouve
ou as lê, com toda a amplitude, significância e
verdade que cada uma delas faz (ou não)
brotar...

É
através de uma história que se pode descobrir
outros lugares, outros tempos, outros jeitos de
agir e de ser, outras regras, outra ética, outra
ótica... É ficar sabendo história, geografia,
filosofia, direito, política, sociologia,
antropologia, etc... sem precisar saber o nome
disso tudo e muito menos achar que tem cara de
aula... Porque, se tiver, deixa de ser
literatura, deixa de ser prazer, e passa a ser
didática, que é outro departamento (não tão
preocupado em abrir todas as comportas da
compreensão do mundo)...

Ouvir e ler histórias é também desenvolver todo
o potencial crítico da criança. É poder pensar,
duvidar, se perguntar, questionar... É se
sentir inquieto, cutucado, querendo saber mais e
melhor ou percebendo que se pode mudar de
idéia... É Ter vontade de reler ou deixar de
lado de uma vez... É ficar fissurado querendo ouvir
de novo mil vezes ou saber que detestou e não
querer nenhuma aproximação com aquela história
tão chata ou tão boba ou tão sem graça... É
formar a opinião, é ir formulando os próprios
critérios, é começar a amar um autor, um gênero,
uma idéia e daí ir seguindo por essa trilha e ir
encontrando outros e novos valores ( que talvez
façam redobrar o amor pelo autor ou viver uma
decepção... Mas isto tudo faz parte da
vida).

Ouvir histórias é ficar conhecendo
escritores - e daí ser importantíssimo dizer à
criança o título do que está escutando e seu
autor (se for material recolhido da cultura
popular, se for autor desconhecido, que se diga
também...), faz parte da formação saber quem nos
disse coisas bonitas, ou encantadas, ou
maravilhosas ou chatas, para que a referência
fique e o caminho esteja aberto para continuar
mergulhando nos textos de quem se admira, para
dar uma colher de chá a quem não nos envolveu
tanto num primeiro contato ou para desistir (ou
adiar para um outro momento da vida...) a
proximidade com o escrevinhador que nos
desagradou ou nos
decepcionou...

Para contar uma história, é preciso saber como
se faz... afinal, nela se descobrem palavras
novas, se depara com a música e com a sonoridade
das frases, dos nomes... se capta o ritmo, a
cadência do conto, fluindo como uma canção... E
para isso, quem conta tem que criar o clima de
envolvimento, de encanto... Saber dar as pausas,
o tempo para o imaginário de cada criança
construir seu cenário, visualizar os seus
monstros, criar os seus dragões, adentrar pela
sua floresta, vestir a princesa com a roupa que
está inventando, pensar na cara do rei... e
tantas coisas mais...

E se
forem as ilustrações do livro, feitas por um
desenhista, dar o tempo para que todos vejam (ou
os que preferem caminhar na sua
própria e pessoal ilustração, que
fechem os olhos...) E quando a criança for
manusear sozinha o livro, que o folheie bem
folheado, que olhe tanto quanto queira, que
brinque com seu formato, que se delicie em
retirá-lo da estante (reconhecendo-o sozinha...
seja em casa ou na escola) que vire página, ou
que pule algumas para reencontrar aquele momento
especial que estava buscando...

Se a criança não lê é porque não lhe estão
apontando caminhos para o desfrute de bons e
belos textos... Que existem (tantos) e são
fáceis de achar... Literatura é arte, literatura
é prazer... Que a escola encampe esse lado e
deixe as cobranças didáticas para os
departamentos devidos... E nesse
sentido, ela faz parte do
leque da educação artística e não da língua
portuguesa... Uma das atividades mais fundantes,
mais significativas, mais abrangentes e mais
suscitadoras de tantas outras, é a que decorre
do ouvir e do ler uma boa
história...
Eber Mingardi
Então... Vamos contar
Histórias...?
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